CORPOS AO INFINITO

 

Há um óbvio jogo de palavras com um toque surreal escondido, no título deste trabalho fotográfico da Fabian. Pode ser uma alusão ao infinito fotográfico. O foco que permite capturar as imagens claras com “close up” ou escolhendo a paisagem distante. Porém esta interpretação não é correta sendo desmentida pelo jeito com que Fabian tira a suas fotos. Podemos pensar num infinito temporal; pela continua repetição de imagens sem fim; mas temos uma última página neste livro. Porque “Corpos ao infinito” então? Ao ver as fotos é natural fazer uma analogía com os padrões de narração de Gabriel García Márquez, com a sua sutil e inesperada mudança da realidade para a imaginação ou realmente para um mundo mágico e mítico. Obviamente os meios da narrativa são diferentes; a riqueza das palavras não é plenamente obtida pelas imagens e viceversa . Com estes ensaios, a autora nos permite adentrar num universo que não pode ser descrito com palavras. Nos seus trabalhos anteriores Fabian já teve um encontro com a dança, ela desistiu de enfocar os bailarinos no palco escolhendo assim outras locações; para permitir que os mesmos se locomovessem livremente e guiados pelas suas características proprias. O interesse dela por esta arte não foi pela capacidade de expressão da mesma e sim pelo movimento que o corpo acostumado a dançar pode realizar, pela liberação da mímica automática sem música para guiar os passos dos bailarinos; somente o ritmo pessoal e interno estimulado pelo ambiente. A expressão fotográfica da Fabian mudou gradualmente, chegando o mais próximo possivel do que acontece enfrente as lentes. Tentou desta maneira adaptar a linguagem figurativa para formar e sinalizar significados. Não é por acaso que este livro nasceu do afortunado encontro, entre uma fotografa apaixonada pela dança e uma coreografa italiana junto com a sua companhia de dança;tudo num lugar ideal: Brasil. O pais sugere os distintos capítulos deste livro. Começando por «Bamboo», onde mostra o encontro entre um homen e uma mulher num canavial o que assume um significativo simbolismo devido ao difícil acesso no conglomerado de cana. O encontro só pode acontecer fora da floresta e termina com um gesto amoroso. As lentes da Fabian movimentam-se sobre os bailarinos e sobre o meio ambiente, alternando imagens claras e escuras com efeitos confusos, ela se aproxima e segue o ritmo dos movimentos, enfatizando pausas e sugerindo hesitação psicológica . Esta é a primeira “estoria” a ser contada pela camera da fotógrafa; desenvolvida por acidente e progressivamente através da improvisação dos dois protagonistas. O segundo “capitulo” mostra um grupo de artistas que se movimenta nas calmas aguas do mar. O efeito ondulado e escuro é enfatizado pelos esguichos de água sobre as roupas transparentes dos bailarinos. Alternando cliques noturnos e diurnos na luz do flash produzem efeitos visuais muito sugestivos contribuindo para reforçar o efeito abstrato que conota toda a serie de fotos. O relacionamento entre os seres humanos e o meio ambiente é uma constante nos dois ensaios que iniciam este livro,as mesmas tentam reproduzir um mítico Èden onde este corpos em movimento misturam-se e confundem-se com os elementos naturais; simboliza a harmonia primitiva com a natureza.
«Centro», o terceiro “capítulo”,(refere-se ao centro de dança do Rio de Janeiro), coincidentemente encontra-se na metade do livro, é dividido em cinco partes. A sua posição é perfeita já que é a única serie de imagens estáticas, perfeitamente em foco; onde vemos a alternancia entre o preto e o branco e um evidente retorno a linha de trabalhos anteriores da Fabian. é ideal para fazer uma pausa, um ponto de passagem. «Corcovado», o quarto “capítulo”, volta à linguagem utilizada nas primeiras series de fotos, mas assume um efeito de maior escuridão que junto a cor preta e branca reduz os bailarinos a meras silhuetas, concentrando toda a atenção no movimento. A delicada e monótona cor aparece novamente no último grupo de fotos, «Oceano» ,onde os protagonistas são iluminados pelos holofotes da praia tranformando-se em formas e pontos coloridos que emergem da escuridão noturna, mexendo-se entre as ondas; e assim convertendo-se em rastros de cor na costa marítima, o que nos faz lembrar o nascimento simbólico e primitivo a partir da água mecionado em muitos mitos da criação. Na realização destas imagens Fabian foi guiada por uma consciência na qual a fotografia não reproduz somente a realidade na frente das lentes da camera; mas cria outra realidade cujas raízes estão dentro de nos; no nosso conhecimento e em nossos sentimentos. Confirmado pela peculiaridade linguística das fotos onde o efeito ondulado e escuro, e o uso alternado das cores preta e branca não são escolhas acidentais, nem uma tendencia ,porém uma forma consciente de expressão. Finalmente encontramos a resposta a pergunta inicial. ” Corpos ao infinito “mostra um desejo de abstração para retirar o realismo excessivo, típico das imagens que reproduzem o dia-a-dia. Manifesta a intenção de conduzir o observador numa realidade diferente próxima de um sonho, de um mundo de fadas.

Massimo Mussini