EYE

Nestas lindas novas imagens feitas por Fabian, corpos jovens, sinuosos, cheios de energia e graça, dançam e se lançam contra um céu claro, luminoso, incisivo, capturados por um segundo olho. O olho das lentes fotográficas e o óculo da arquitetura da ponte de Santiago Calatrava, que se estende ao longo da rodovia “Autostrada del Sole” até Reggio Emilia. Esta abertura redonda foi inspirada em pequenos templos renascentistas, dando-nos um vislumbre dos bailarinos ágeis e leves suspensos num abraço tão forte quanto as cordas da ponte, que a elevam às nuvens, mantendo a ponte entre a terra e os céus. É uma enorme harpa branca pendente no ar. Nas imagens, esculpidas pela luz e pela sombra, o olho da câmera e o olho arquitetônico são metáforas um do outro, formando um jogo de espelhos e referências dentro do qual Fabian captura, com elegância formal incomparável, os momentos de poesia do corpo e da natureza, ligados ao tema da dança. Neste ciclo de fotografias, além da ponte de Calatrava, vemos também as ruas e praças históricas de Reggio Emilia, a paisagem do interior e a floresta em torno da cidade, que servem como cenário – ou mais precisamente, como palco – para os movimentos e passos graciosos, cuja habilidade é observada pelo olho de uma artista que escolheu sua terra natal para suas novas visões.

Domenico Montalto

 

EYE

Uma grande paixão pelo estudo do corpo: o corpo parado, o corpo em movimento, o corpo na sombra ou na luz. Sempre incapaz de conter a emoção que ele inevitavelmente manifesta. Esta é a primeira coisa que vem à minha cabeça quando vejo o trabalho de Fabian: que em suas imagens existem árvores, o mar ou a dança, e a essência de sua corporeidade se mantém exatamente a mesma, tanto no sentido puro físico e material, quanto na sua expressão vital, cheio de significados. Com suas imagens, Fabian narra uma nova história a cada vez, recontada pelo seu olhar, que mesmo explorando contextos completamente diferentes, se faz absolutamente reconhecível. Eu me sinto muito ligado a Fabian e sua obra, como um artista e sobretudo como um coreógrafo. Reconheço no seu trabalho a poesia e a sensualidade do movimento que procuro todos os dias.

Mauro Bigonzetti

 

“OCULI”

“Para os olhos o céu é o pão de cada dia”: esta citação de Ralph Waldo Emerson pode explicar parcialmente por que nesta série inédita de imagens feitas por Fabian, o azul do céu é uma presença constante, assim como os corpos humanos, que permanecem como tema e principal foco das lentes. O poeta americano parece nos dizer, de maneira inteligente e irônica, que nossos olhos não são feitos para olhar para frente, mas para cima, o que não deve ser interpretado literalmente. De acordo com antigos filósofos, o “acima” era em realidade o lugar da noção de profundidade e do conceito divino de beleza. E não há dúvida que Fabian, ao fazer com que dois opostos vivam lado a lado, o corpo humano – símbolo da finitude por excelência – e o infinito do céu, criou seu próprio oxímoro particular e extremamente poético, como se quisesse dizer: a audaciosa perfeição da dança, do amor, do ritmo, e a força vital do entrelaçamento de jovens braços e pernas merecem este glorioso palco e este magnífico cenário.
Em suas lindas fotos mais recentes, Fabian se manteve próxima do tema de Terpsícore, explorado mais uma vez após seu trabalho anterior: “Corpi all’infinito”. Corpos ágeis, cheios de graça e energia, dançando e flutuando, contra um céu claro e brilhante, sem nuvens, circundado por um olho triplo. O olho da artista, o olho da lente e o o óculo: uma janela redonda da arquitetura da ponte construída por Santiago Calatrava, que se estende ao longo da rodovia “Autostrada del Sole” nos arredores de Reggio Emilia. Nesta abertura redonda, inspirada em pequenos templos do século XV, vemos bailarinos de corpos fortes e atléticos fazendo acrobacias, sozinhos ou em pares, unidos num abraço apaixonado e sensual, tão forte quanto as cordas da ponte, que a elevam às nuvens, mantendo a ponte entre a terra e os céus. Como cenário para este novo reconhecimento da dança e da glória corporal, Fabian escolheu uma enorme harpa branca pendente no ar, uma estrutura tecnológica criada por um grande arquiteto.
Neste lugar, a dança, que é arte primária e ato principal de Dionísio, vive ao lado de um dos maiores ícones dos tempos modernos, unindo o primordial e o contemporâneo, performance artística e ciência, numa parcimoniosa, porém colorida, bola de cristal de brancos, azuis, cinzas, rosas e verdes. Nas imagens, esculpidas pela luz e pela sombra, os três olhos, ou “oculi” – a consciência de Fabian, o olho óptico da câmera e o olho arquitetônico – são metáforas entre si, formando um jogo de espelhos e referências dentro do qual Fabian captura, com elegância formal incomparável, os momentos de poesia do corpo e da natureza, ligados ao tema da dança. Ainda nesta série de fotografias o cenário, ou melhor, o palco escolhido é composto também pelas ruas e praças históricas de Reggio Emilia, além da paisagem do interior e a floresta em torno da cidade. Os passos e gestos harmoniosos são observados em toda sua felicidade pelo olhar de uma artista internacional que escolheu sua terra natal para suas novas visões. Fabian demonstra um profundo conhecimento das linguagens formais da nossa era e também daquelas utilizadas pela mídia, acima de tudo pela fotografia e pelo jornalismo de moda, que foi notavelmente reinterpretado por ela através de pesquisa e resultados extremamente originais.
No entanto, Fabian não utiliza nenhum recurso ou dispositivo especial no seu trabalho: ela continua a reviver o antigo mistério da fotografia. A realidade posa para a lente, que a disfarça com uma nova e surpreendente beleza. Para Fabian, a imagem ou a forma estética já existe no mundo real: é uma simples questão de procurar e descobrir a imagem com os olhos curiosos de um explorador. Tudo é imagem. Por outro lado, a famosa passagem do Evangelho Segundo João (En arché en o logos: “No princípio era o verbo.”) nos lembra o quanto a ideia conceitual precede o objeto, pois a beleza é inata, um arquétipo da mente humana. Toda a etimologia relacionada ao ato criativo da visão confirma a possibilidade de transformação, assim como na alquimia, guiada pela ação criativa do óculo. O verbo em latim imaginor descreve uma sutil atividade da mente e as imagines seriam fantasmas, ilusões, incluindo até mesmo o eco do som e – mais especificamente – reflexos de um espelho.
Estas magníficas fotografias de Fabian são o puro resultado de sua visão, que nos oferece este ar sublime de pessoas, modelos e bailarinos. Fabian é uma fotógrafa da seguinte linhagem: seu olhar captura as imagens diretamente, sem nenhum instrumento tecnológico, apenas por intuição e com uma misteriosa afinidade eletiva, como nos mostra a pureza quase renascentista deste belíssimo conjunto de fotos. Purista em relação às lentes, Fabian não exclui, entretanto, uma pesquisa formal através do processamento digital e eletrônico das imagens, produzindo efeitos artificiais e sensuais. Isso ficou evidente numa série mais recente de fotos tiradas de paisagens e dos corpos dos bailarinos próximos ao rio Enza na sua cidade natal. Algumas delas apresentam um vermelho brilhante e dominante e outras, como ilusões de ótica, mostram corpos quase “plastificados”, todas obtidas com uso do computador.
Na obra de Fabian, o instrumento (técnico) é, contudo, sempre subordinado ao nobre propósito de devolver o aspecto poético escondido nas formas e nos movimentos; o aspecto maravilhoso de um mundo real que ganha uma nova dimensão intelectual – extremamente moderna, na qual todos podemos nos identificar – que confirma o que Roland Barthes diz em sua obra Fragmentos de um Discurso Amoroso: “A essência da fotografia não é retratar, mas sim trazer de volta uma lembrança.”

Domenico Montalto