Poesia do Corpo por DENIS CURTI

Fotos em madeira / emulsão em painel

 

Qual che tu sii, perdonami (dice)
O spirito umano, o boschereccia dea

(Ludovico Ariosto, Orlando furioso, VI 26-33)

 

Fabian retrata bailarinos e desenvolve seu trabalho em painéis de madeira através de uma técnica especial: a emulsão em painel, assim os trabalhos ficam intencionalmente instáveis. Na madeira avermelhada uma nova forma será revelada como um decalque lento. A combinação entre tempo e espaço de este processo parcialmente verificado é complexo: temos a superimposição da técnica da pintura e do efeito plástico, e duas artes visuais em contato, fotografia e dança. Uma é dinâmica, tridimensional e efêmera; a outra um movimento bidimensional e corruptível. O ritmo em dança (culturalmente associado à continuidade e valor musical) é quebrado e a sucessão do material sonoro é dividido em alavancas, linhas de força corporal e em coordenadas inerentes. Antes da foto o espaço externo coordena o tempo; corpos que estavam prontos para se mexer, para liberar o peso, para diminuir ou aumentar a distância agora são sombras que, retirada numa atmosfera rarefeita, numa alegria onírica, flutuam numa superfície gradualmente danificada, impalpável, distante e de sons fracos, após deixarem o espaço que governaram em harmonia, lembrando um todo de figuras amplificadas pelo silêncio e a penumbra. Mexem-se para trás, seguindo as marcas místicas da metamorfose da flora onde álamos, salgueiros e outras árvores são como homens e mulheres feridos por uma perda enquanto mirra, louro e avelã servem como inspiração, mas não como amor desejado. Estes motivos, onde uma velha fábula fala sobre um possível mundo num universo improvável, são elementos de uma trama onde tudo se encaixa, e sempre que a razão nos foge a fábula volta.
O indefinido já foi motivo de reflexões complexas na arte e na literatura. A obra prima desconhecida do Balzac relaciona-se através de uma trama densa. A vaidosa procura do sinal e retrato perfeito, estando na frente das tendências nas artes. Hofmannsthal percorre os limites com educação, levantando o senso da forma e a norma como um escudo contra o apelo tabu e decadente (Cláudio Magris), e na carta ao Senhor Chandos ele é obrigado a justificar o silêncio literário de um escritor surpreso pela epifania ininterrupta que o deixa maravilhado na carta. O escritor arrependido de Affalatus das fábulas e das histórias místicas que foram passadas pelos antigos e das quais os escultores tomaram um grande deleite (P37 carta do Lord Chandos Hofmans Thal bur Bilingue). Porém a geometria do infinito é representada por um sistema especial de coordenadas, assim como uma margem no produto artificial enquanto a indeterminação prediz a probabilidade mais que a certeza em oposição à idéia da criação ex nihilis e a realização de uma possibilidade. Fabian não esclarece o seu conceito, ela deixa a natureza física do corpo mesmo sem movimento entregar-se à materialidade de suporte; como anjos caídos deixa-nos ver o discobulus, mesmo que atirando para cima e para baixo seja desagradável ou um Adonis (de uma mãe silvestre produto de um incesto). E um enxerto que se coloca ente um local antigo e um moderno com o espírito nostálgico da possível realização mesmo que indeterminada. Fabian deixa como legado uma série de sinopses do tempo. Alguém já trabalhou intencionalmente em suporte e com alguns materiais capazes de alterar a transitoriedade e curta vida da forma original, porém aqui isto ocorre como nunca antes.

Denis Curti