SILENT MUSIC
Fotografar a dança fora do palco é a idéia por trás das imagens de FABIAN. Esta decisão fez que o tema fosse abordado não como um espetáculo e sim como uma maneira de perceber a corporeidade.O bailarino profissional, assim como o atleta, deve ter uma noção mas profunda do seu próprio organismo do que a de um ser humano comum. Esta afirmação pode parecer um pouco absurda, já que a condição essencial de um indivíduo consiste em ter um corpo com o qual se locomover, sofrer, amar e pensar. Ao considerar o questionamento de um ponto de vista levemente diferente, descobrimos que, por simplesmente viver em nossos corpos, nossas percepções diárias do mesmo tendem a ser mais passivas do que ativas. Isto quer dizer que só estamos realmente conscientes da presença do corpo em alguns momentos do nosso dia e não estamos preparados para utilizar por completo o potencial que isto envolve. O bailarino, por outro lado, ao se expressar somente com o corpo e sem a voz deve ser capaz de mostrar o máximo possível da sua capacidade expressiva, deve dominar a suas expressões ao ponto de ser um processo automático, assim como a respiração. Como o foco da sua fotografia, o movimento da dança é leve e natural como a respiração; Fabian entendeu a forma de revelar o mesmo nas suas imagens. Começando com um conhecimento casual da dança, a autora logo empreendeu uma pesquisa que a levou a encontrar diversas pessoas e a estabelecer uma relação simbiótica com elas. O conhecimento que os dançarinos têm dos seus corpos e a habilidade de se mover harmoniosamente foi capturada e transferida a imagens que convergem à forma visual o equivalente do ritmo musical. A certeza do profissionalismo obtido através da fotografia na moda, onde o corpo vestido é o protagonista, deram o fundamento necessário que Fabian precisava para compreender o que vale a realidade corpórea. Contudo, estas imagens nunca poderiam existir sem a cumplicidade direta dos bailarinos. A diferença fundamental entre esta série de fotografias e imagens tradicionais, tiradas num teatro durante uma apresentação, vem do fato de que neste momento a confiança do fotógrafo e do artista é imediata, e a diferença dos seus papéis já não os separa. Nem mesmo a grande barreira do palco se interpõe entre eles. Cada qual usa da medida do espaço e o bailarino não interpreta um tema audível, como faz no teatro, mas segue uma musicalidade interna conhecida somente por ele mesmo. Nesta situação, não há escolha para o fotógrafo a não ser rejeitar a documentação das formas de dança e estar presente no corpo da matéria como a visão absoluta tentando afinar o ritmo secreto dos movimentos e traduzir as imagens que são diferentes entre elas como se fossem personalidades artísticas, pois as formas corporais e os locais de apresentação são diferentes. Somente ao considerar esta condição é possível entender como os corpos em movimento, às vezes piscando como a chama de uma vela ao vento, alterna figuras sólidas e imóveis tão poderosas quanto esculturas clássicas. Elas não são e não querem ser simples fotografias carnais, somando a estética nua e sim imagens de animação suspensa. São representações visuais da pausa entre as batidas no espaço silencioso compartilhado que está alerta à tensão pertencente ao movimento, que acabam juntos e que estão a ponto de iniciar novamente. Ao alternar imagens em preto e branco e coloridas, a autora usa outro instrumento lingüístico: como a cor é convencionalmente percebida como mais aderente à representação realística e o preto e branco ao simbólico, Fabian em alguns casos destruiu estes valores perceptivos, usando técnicas de desfoque ou neblina que diminuem levemente a qualidade realista da imagem. O intuito das fotografias de Fabian é de dar forma visual ao conceito abstrato, a harmonia comunicada silenziosamente de um corpo em movimento rítmico

Massimo Mussini